
“Diga que eu pratico esportes. Nunca me perguntam isso, mas eu gostaria que soubessem que sou bom em atividades físicas.” Pode parecer paradoxal que o autor cerebral, capaz de criar roteiros com tramas artesanalmente entrelaçadas e livros densos, trabalhos resultantes de grande esforço de pesquisa, queira chamar a atenção para suas habilidades corporais. Talvez tenha sido a influência das Olimpíadas, já que conversávamos no mesmo sábado em que o nadador César Cielo ganhou ouro em Pequim, feito que emocionou nosso entrevistado.
Guillermo Arriaga é, de fato, múltiplo e único. Escreveu Esquadrão guilhotina aos 29 anos, no qual resgata a Revolução Mexicana (1910-1920), para contar a história do advogado Feliciano Velasco, que disfarça sua origem aristocrata para se aproximar do revolucionário Pancho Villa e vender-lhe uma guilhotina, mas acaba cooptado como “compañero”.

Também escreveu os romances Um doce aroma de morte e O búfalo da noite, e o volume de contos Retorno 201. Tornou-se mundialmente conhecido como roteirista dos filmes Amores brutos, 21 gramas e Babel, todos com direção de Alejandro Gonzáles Iñárritu, com quem rompeu por não aceitar que o diretor seja geralmente identificado como o único autor do filme ou pelo menos tenha mais visibilidade que o escritor. Foi premiado em Cannes em 2005, por Os três enterros de Melquíades Estrada, dirigido por Tommy Lee Jones. A película trabalha com o valor de uma morte, assim como nos outros filmes, e critica a maneira como os mexicanos migrantes para os EUA são tratados.
Neste ano, Arriaga experimentou ser diretor, na adaptação de The burning man (livro de Phillip Margolin) para o cinema. O filme estreou no mais recente Festival de Veneza e poderá vir para o Festival de Cinema do Rio ainda este ano.
Nos bastidores, contou que é casado há 25 anos e pai de dois filhos, uma menina de 15 e um rapaz de 17 anos. O escritor surpreendeu com seus conhecimentos sobre a cultura brasileira, revelando que gosta de ouvir e falar “portunhol”. Acompanhe.
Você escreve do México e sobre ele, com muitas referências históricas. Este país tem uma cultura ancestral muito forte. Como pensa a identidade mexicana hoje? É preciso entender que os liberais não perderam a guerra no México e isso definiu o país de uma maneira muito forte. Foi um dos primeiros países a ter a lei de divórcio, a não ter religião oficial, e tudo isso tem a ver com a cultura indígena. Foi um grande presente liberal. Mas, apesar de haver um movimento que reivindicava, há um racismo escondido e desigualdade; tivemos um milhão de mortos na revolução mexicana. É curioso como Obama visita a França e a Alemanha, mas não o México. E este é o país que mais influencia os Estados Unidos. A migração se aprofunda, 90% da cocaína entra por lá. Além disso, é seu maior comprador de armas; existe um tráfico à inversa, que é o de armas, para o México. O país está em um momento de definição. Há grande violência, narcotráfico, desigualdade econômica. São semelhanças com o Brasil, com a diferença de que lá o tráfico alimenta um mercado maior do que aqui.
Como os mexicamos percebem isso? Somos um país profundamente nacionalista. Sentimos que o Texas e a Califórnia algum dia voltarão a ser território nosso. Mas é um país de violência profunda, que pode parecer fora de controle.
Essa violência tem um reflexo na vida cotidiana das pessoas. É isso que aparece nos seus roteiros? Claro! Mas creio que isso seja comum a todos os países latino-americanos, em maior ou menor grau. São Paulo, Rio, Buenos Aires, Bogotá, Caracas, em todos os grandes centros metropolitanos da América Latina temos de enfrentar a violência. E não podemos fazer comédia da violência; ela não nos parece divertida. O que faço é questionar com um certo humor.
Mas você faz piada em Esquadrão guilhotina. Sim, mas não é uma comédia da violência, a graça está na história. Usei o humor para questioná-la; para dar um ponto de vista distinto, ver outros lados. É uma mudança de perspectiva. Não há inocência quando se faz uma novela histórica. Não estamos falando do passado, estamos falando do presente.
Mas é uma farsa? Sim. A melhor forma de fazer com que um político se dê conta dos problemas é pela farsa. Ela permite desnudar a política.
Isso faz lembrar Marx quando disse no 18 Brumário que a história acontece duas vezes: a primeira como tragédia, a segunda como farsa. Pode ser que tenha razão. A revolução mexicana foi profundamente trágica.
E agora é uma farsa? Não necessariamente. Podemos ficar todo o tempo na tragédia.
Você já veio outras vezes ao Brasil. Como pensa a inserção deste país na cultura latino-americana? Sabe, eu gosto de ouvir as pessoas falando “portunhol” comigo, mas creio que o idioma faça com que o Brasil fique um pouco isolado. Os brasileiros estão em um país grande, em uma potência econômica, em que há um orgulho brasileiro. Acho que isso também está mudando na América Latina. O Brasil se dá conta de que não pode continuar isolado. O governo de Lula é muito bem-visto, como um estadista, de uma maneira mais ativa que Fernando Henrique Cardoso. É visto como um homem que está no controle do país. Acho que é um país muito influente. Juan Rulfo dizia que todos devemos ler o Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.
Você já leu? Sim, há muitos anos, em espanhol. O cinema brasileiro também é muito importante. Cidade de Deus e Central do Brasil são muito distintos, mas duas grandes influências. Na literatura, Paulo Lins abriu todo um mundo desconhecido, com uma novela antropológica. Clarice Lispector também é uma mulher muito respeitada. E gosto do trabalho do meu amigo e escritor Marçal Aquino. Da música, falta ao Brasil conhecer toda sua gama musical. Eu gosto de Pavilhão 9, de todos os grupos de rap da favela que não são conhecidos fora. Ouço Titãs e uma grande cantora pop, Vanessa da Mata. Tudo isso é pouco conhecido fora, eu conheço porque sou fanático por música, tenho mais de 50 CDs de música brasileira, de Daniela Mercury a Pavilhão 9. Outro filme importante é Carandiru, de Babenco. Aliás, o Pavilhão 9 ficava dentro do Carandiru, não?
Sim. Já que falamos do Pavilhão 9, vamos tratar da questão da vida e da morte em seu trabalho de escritor e roteirista? Toda minha obra literária foi escrita antes dos roteiros. É um pouco difícil tratar das obras que escrevi. Às vezes, parece como um cadáver seu que morreu.
Ainda caça? Sim, sobretudo no México. Mas já cacei no Texas, no rancho de meu amigo Tommy Lee Jones, e na Argentina.
Os ambientalistas nunca te perseguiram? Os ecologistas sérios, não, pois estes são caçadores. Os que criticam são os que confundem os animais com os seres humanos, que vestem seus cachorros com blusas e botas.
Que animais você caça? Caço veados, pombas, codornas, gansos e patos.
E você já disse que o caçador tem amor por sua caça. Claro! Um caçador respeita a presa, não é um predador. O caçador está na natureza, não mata por matar. Já persegui um veado e, depois, decidi não matá-lo.
Pode caçar e não matar? Sim, e se pode matar e não caçar.
Você já matou? Sim, muitos.

E o que você faz com a caça? Eu como. Invento receitas. Por exemplo, coelho com tequila, pomba com molho de vinho tinto.
Quem são seus escritores favoritos? Pedro Juan Gutiérrez é o maior escritor do mundo. Uma vez, escrevi um e-mail para ele dizendo “quero ser seu amigo”.
Por que você se encanta com histórias simultâneas? Porque assim é o ser humano. Estamos aqui falando de várias coisas, histórias que se tocam. Sempre, na vida real, contamos muitas histórias que vão se tocando uma com a outra.
Em Babel, há uma relação de causa-efeito entre os acontecimentos. Em Amores brutos as histórias não têm essa interdependência. O que significa essa mudança de registro? Juan Rulfo escreveu contos muito distintos em El llano en llamas. William Faulkner também era assim. Isso significa que cada história tem uma maneira de ser contada. Eu não busco uma forma única que se repita, e sim uma aproximação estética. Cada história tem uma forma orgânica de ser contada.
Escrever e dirigir te ajuda a contar melhor uma história? São dois momentos distintos. Escrever e dirigir são duas maneiras diferentes de contar uma história.
Você afirma que dirigir foi sua melhor experiência profissional. Sim, uma das melhores. E também das mais divertidas. Trabalhar com a equipe que trabalhei foi um privilégio. Contei com atores, com gente muito boa atrás das câmeras… Foi como ter Zidane e Ronaldinho na mesma equipe.
Você pretende voltar a trabalhar com Iñárritu? Não, isso terminou para sempre.
Geralmente, a autoria de um filme é creditada ao diretor. Como você acha que seria uma forma justa de dar créditos no cinema? Agora que fui diretor, declinei do crédito “um filme de”. O melhor seria colocar sem hierarquias. A quem pertence o mundo interior?
Você acredita que a literatura muda o mundo? Creio que a literatura não promove mudanças, mas permite formular perguntas. E as perguntas promovem as mudanças. Uma menina em uma livraria chegou e me disse “O búfalo da noite me tirou todas as dúvidas que meu terapeuta não conseguiu tirar em três anos”. Essa é talvez um das melhores homenagens que se pode fazer a um escritor. Às vezes, os livros questionam tão fortemente a realidade que esta tem de mudar.
Quais autores você lê hoje? Pedro Juan leio muito. Livros de ensaio. Tem um autor americano chamado Malcolm Gladwell que escreveu dois livros interessantes, The tipping point – How little things can make a big difference e Blink – The power of thinking without thinking.
Você está escrevendo alguma coisa agora? Não. Há quatro dias terminei o filme (a entrevista foi feita em 16/8/2008), trabalhando muitas horas por dia. Estou muito cansado, mas também muito contente. Agora, estão terminando as cópias para mandar para o Festival de Veneza. Acho que venho ao Brasil apresentá-lo no Festival de Cinema do Rio. E espero que vocês gostem.
Qual foi o primeiro autor que te encantou? Hemingway foi um dos primeiros. Shakespeare e Steinbeck, eu li aos doze anos, na escola. Também fazia teatro, era obrigatório. Li Ésquilo, Sófocles, Eurípides.
E no cinema, quais são seus favoritos? Bráulio Mantovani (roteirista), Fernando Meirelles, Walter Salles, Hector Babenco. Para qualquer pessoa de cuja obra eu gosto, ligo dizendo que quero ser amigo.
Quero ser amigo de Guillermo Arriaga. Amigos! Gostei muito desta entrevista, obrigado.
Fonte: Revista da Cultura












seloti Desse:
lokas as imagens!
October 18th, 2008 às 2:03 pm