O CORPO HUMANO COMO PARTE DA IMAGO DEI

Por Redação | February/11/2009


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O relato da criação em Gênesis revela que a nossa posição de domínio na natureza faz parte do projeto de Deus. E vai além disso, dando-nos conta de que somos diferentes do resto da criação por outro motivo além de nossa privilegiada posição na ordem das coisas terrenas. O modo como fomos criados foi diferente do resto da criação. Antes da humanidade, a substância preexistente simplesmente recebe ordem de vir a existir. No caso dos seres humanos, porém, Deus compartilha algo dele mesmo com uma forma terrena especialmente modelada para receber isso. Gênesis 2.7 afirma: “Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tomou um ser vivente.”

À luz desse texto, parece que a nossa forma terrena se tornou “viva” somente em conjunção com a doação do “fôlego” ou espírito da parte de Deus. O termo “ser vivente” ocorre em 1.24 e, novamente, em 2. 19, referindo-se a criaturas com o poder do movimento no ar, na água e na terra. Esses seres vivos anteriores tinham sido produzidos a partir do pó ou da água, mediante uma ordem divina. Agora, nos humanos, o “ser vivente” surge de um molde de barro, como resultado do influxo do espírito de Deus.

Sejam quais forem os detalhes precisos do processo – e temos de ter cuidado para não organizá-los de uma forma que seria uma blasfêmia contra a natureza de Deus –, o homem também se torna um “ser vivente”, com uma natureza animal, mas com grandes diferenças – nós temos uma natureza que é adaptada e apropriada para ser o veículo da semelhança de Deus.

Assim, os dois lados da grande contradição humana, pó e divindade, são colocados no lugar. As criaturas humanas, como todos os seres vivos, têm sua própria vida. No entanto, embora esta vida seja mortal e fugaz, continua sendo a vida na qual somente nós, dentre os seres vivos criados, podemos nos opor a Deus – de maneira que também possamos escolher estar com Deus.

Se não tivéssemos esta capacidade, não poderíamos desempenhar o papel que nos cabe dentro do plano de Deus, pois seríamos apenas marionetes. Nenhuma marionete poderia trazer consigo a semelhança de Deus ou ser filho do Pai. O corpo humano em si é parte da imago Dei, pois é o veículo por meio do qual podemos efetivamente adquirir o poder limitado da auto-subsistência que necessitamos ter para realmente sermos a imagem e semelhança de Deus.

É neste ponto que reside o principal conceito sobre a nossa natureza que precisamos entender para falar de redenção. Vamos tentar esclarecer o máximo possível este ponto para o qual tudo converge na teologia prática. Ao criar o ser humano à sua imagem, de modo que pudéssemos governar com Ele, Deus nos deu uma medida de poder independente. Sem este poder, de forma alguma poderíamos nos assemelhar a Deus do modo tão próximo como Ele desejava, nem poderíamos ser seus cooperadores. O depositário desse poder necessário é o corpo humano. Isso explica, em termos teológicos, porque temos um corpo. Este corpo é nossa área primária de poder, liberdade e – portanto – responsabilidade.

Do ponto de vista estritamente físico, agora sabemos que a massa corporal na verdade é um depósito de grande quantidade de energia. A fórmula de Albert Einstein E = MC2 (a energia potencialmente presente numa porção de matéria é igual à sua massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz) é uma revelação surpreendente da natureza da matéria. E a matéria, evidentemente, é o que compõe o nosso corpo, E sua natureza poder. A explosão de uma partícula de urânio libera a quantidade de poder equivalente a cerca de seis milhões de vezes à que ela exerce sobre seus arredores antes que ocorra a fissão. O poder exercido quando uma pilha de madeira é queimada, liberando a energia potencialmente presente nela, é imensamente maior do que a que é exercida antes da queima, o que se, o que se observa imediatamente pelo que acontece em torno da madeira incendiada.

Algumas porções pequenas do poder potencial em nosso corpo ficam a disposição de nosso pensamento consciente, intenções e escolha. Em essência, o caráter de um indivíduo é apenas o padrão das formas habituais como ele usa seu corpo – seja de acordo com suas intenções conscientes ou não.
Com esta explicação, podemos avançar para um entendimento correto de um termo absolutamente central à compreensão da psicologia da redenção:da “carne”. Este termo bíblico essencial aplica-se à substância física natural de uma pessoa (sobre a qual falaremos mais) e refere-se ao reservatório de poderes independentes, finitos, inerentes ao corpo humano como um “ser vivente” entre outros seres viventes. No Éden, um desses poderes humanos específicos era o de interagir não somente com aquilo que era orgânico, como os outros seres vivos – as criaturas do ar, da terra e da água –, mas mesmo com o que era inorgânico, a matéria sem vida, e também com Deus e seu poder. No entanto, a morte de Adão e Eva, no momento do pecado original, representou também a morte desse relacionamento interativo com Deus. O pecado resultou na perda dessa proximidade como um fator central constante na experiência deles (Gn 3). O ser humano perdeu também, com isso, o poder necessário para o cumprimento de seu papel como governante de Deus sobre a terra.
Essa descrição da missão original da humanidade sugere a necessidade de um poder que está muito além daquele que homens e mulheres possuem agora, independentemente da sua posição na ordem do Reino de Deus. Creio que o ser humano foi designado por Deus, na essência do seu ser, a cumprir seu governo combinando o relativamente pouco poder próprio, residente em seu próprio corpo, com o poder infinito inerente ao Reino de Deus.

Atualmente desenvolvemos robôs que se movem pela sua área de atuação até que a bateria acabe. Então, internamente eles sentem a necessidade de mais energia, conectam-se à rede elétrica e recarregam suas baterias. Similarmente, enquanto o homem e a mulher se mantiveram em contato e harmonia com Deus, puderam recorrer aos recursos do poder divino para realizar a Missão Impossível a eles atribuída. Seu domínio seria completo e efetivo dentro do escopo estabelecido por Deus, porque o poder humano seria usado em conjunção com o poder divino. O governo humano era governo de fato – entendimento, desejos e escolha –, mas era exercido por meio de um poder maior que seus próprios corpos poderiam carregar, um poder exercido mediante uma relação pessoal com o Criador de todas as coisas.

No entanto, para entender como tal poder é acessível a mulheres e homens dentro das limitações de nosso ser corporal finito, temos de olhar mais profundamente a natureza da vida, especialmente para suas habilidades surpreendentes de transcender a si mesma – para seguir seu curso por meio de uma substância que transcende a ela. Somos pouco menores do que os seres celestiais somente porque nossa vida é de tal natureza que pode recorrer aos recursos infinitos de Deus.

Dallas Willard



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2 Respostas

  1. leonmarti Desse:

    o livro do Ed rene kivitz “vivendo com propositos relata mto bem essa relação do imago Dei com o homem!

    February 11th, 2009 às 2:34 pm

  2. Daniel Desse:

    Parabéns pelo excerto de “O Espírito das Disciplinas”, de Dallas Willard. Temos nos dedicado ao estudo do pensamento teológico-prática de Willard e sua ênfase no papel fundamental das disciplinas espirituais na formação espiritual. Temos uma comunidade no Orkut que reúne seus leitores. Estão todos convidados!

    February 11th, 2009 às 5:24 pm

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