
Vivemos neste início de século um momento de grande vazio existencial e ideológico. Há pouca esperança neste mundo sem alternativas econômicas justas e sem perspectivas políticas consistentes. A violência resulta no crescimento da incerteza e da insegurança. Nesse “salve-se quem puder” o mercado e a globalização se tornaram totens sagrados. É a primazia do capital sem pátria e sem ética e da lógica perversa da exclusão. Nossa geração vive neste quadro social caracterizado pela falência dos sonhos e das utopias, pelas privações materiais e pela ausência de parâmetros e de valores éticos e morais na família, no Estado, na ciência e nos negócios.
Nesse contexto o aspecto espiritual surge como um elemento de esperança e o homem contemporâneo volta-se para a religião como uma resposta, um alívio, uma cura para seus males. Surge, então, um supermercado da fé com suas prateleiras repletas de produtos: tarô, mapa astral, manuais de auto-ajuda, esoterismo, antigas e novas religiões ocidentais e orientais. Vivemos um reavivamento religioso caracterizado pelas leis do mercado e pela competição. Ganha o cliente quem tem a melhor estratégia de marketing.
Infelizmente, a igreja evangélica também caiu na armadilha do mercado. Passamos a apresentar um Jesus Cristo atraente, prometemos a salvação dos céus e a prosperidade na terra, que não exige renúncia alguma. Palavras como sacrifício, pecado, arrependimento, foram substituídas por decretar, conquistar, saquear. Transformamos nossas igrejas em prestadoras de serviços religiosos.
Para segurar os fiéis ariscos, prontos para criticar e mudar de igreja quando contrariados, temos pregadores ungidos e comunicativos, apoio da mídia, cultos bem produzidos, testemunhos de convertidos famosos. A eficiência passou a ser medida não mais pela santidade e pela presença profética, mas pelas leis do mercado: produtividade, desempenho, faturamento, profissionalismo. No seu anseio por novidades, a igreja brasileira se tornou refém de técnicas religiosas importadas e devidamente apostiladas.
O membro da igreja se tornou um consumidor exigente, que quer serviços de qualidade no louvor, na escola dominical, no púlpito, além de estacionamento e uma boa programação. Ele não passa de um mero coadjuvante no projeto pessoal do líder carismático que faz a igreja crescer. É útil enquanto apóia, colabora, contribui, ou seja, enquanto é produtivo.
Nesse esquema não há lugar para pessoas questionadoras ou que buscam modelos eclesiásticos mais relacionais e menos eufóricos, mais autênticos, com mais amor e menos poder. Tudo é mágico e instantâneo. O pacote teológico e missiológico vem pronto, sem reflexão, sem profundidade e sem diálogo com a comunidade e a cultura. E quando vem a ruptura, ela vem da pior maneira possível, com luta pelo poder, maledicência, traições, expulsões e ressentimentos, que geram inimizades irreconciliáveis.
Por um lado, temos a migração contínua: muitos crentes já estão na terceira ou quarta igreja desde que se converteram; por outro lado, cada vez mais cristãos sinceros e comprometidos, porém feridos e abalados pelos descaminhos da igreja evangélica. Eles permanecem firmes na fé, no entanto não querem participar de nenhuma igreja. Alguns se voltam para a espiritualidade clássica cristã e passam a se alimentar de antigas correntes da igreja histórica, ocidental e oriental. A meditação, o silêncio, a solitude, os votos, a oração do coração, a mentoria, o companheirismo cristão são caminhos alternativos.
A tentação do mercado levou a igreja a distorcer os conteúdos da Grande Comissão. Fazer discípulos de Cristo, isto é, seguidores e imitadores de seu projeto, tornou-se fazer neo-evangélicos bem-sucedidos. Batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, isto é, a experiência e a compreensão do mistério do relacionamento trinitário, tornou-se batizar na cultura denominacional. Ensinar a guardar todas as coisas que vos tenho ensinado, isto é, o aprofundamento contínuo na abrangência do discipulado, tornou-se ensinar a pedir todas as coisas.
O resultado da religião de mercado é uma crise sem precedentes na liderança da igreja evangélica brasileira. Para aqueles que não se renderam ao mercado resta, muitas vezes, a frustração de seus ministérios diminutos e a culpa pelo lento crescimento de suas igrejas. Mesmo celebrando o crescimento numérico, precisamos assumir este lado obscuro da igreja, que não gostamos de admitir. Estas linhas nos convidam a olhar amorosamente para nós mesmos, líderes evangélicos: nossos corações, nossas motivações, nossa tentação pelo mercado, fazendo pequenas concessões e nivelando por baixo as exigências do discipulado e os conteúdos da Palavra de Deus.
Mais do que nunca a igreja precisa de homens e mulheres que ousem olhar para dentro de seus corações e confessar suas mazelas, seus desejos de poder e de riqueza, suas vidas afetivas e sexuais não resolvidas, suas divisões e brigas, sua omissão profética e seu descaso social. E, assim, confessar nossos pecados e invocar a misericórdia do Pai para termos a coragem de prosseguir, apesar de nossas falhas, nesta sublime vocação de santidade e serviço para a qual fomos chamados.












Filipe Martins Desse:
Otimo texto!
Soco na cara pé no peito, mas pura realidade! rs
Deus abençoe
July 21st, 2009 às 11:39 am
♥ëLëя۞ ↔ ℓǿکT°°ټ°♫™ Desse:
A igreja e o mercado:
Vivemos neste início de século um momento de grande vazio existencial e ideológico. Há po.. http://bit.ly/234srn
July 21st, 2009 às 11:46 am
vineyard CAPITAL Desse:
Nesse contexto o aspecto espiritual surge como um elemento de esperança… http://tinyurl.com/mtbjdr
July 21st, 2009 às 12:28 pm
Thiago Rogel Desse:
rt @proibidopessoas Nesse contexto o aspecto espiritual surge como um elemento de esperança… http://tinyurl.com/mtbjdr
July 21st, 2009 às 12:31 pm
esther michel chen Desse:
verdade. Deus tem falado: “qual a sua motivação para fazer as coisas?”. infelizmente muitas vezes fazemos o que sabemos para outros verem, não só em relação ao mercado, mas poxa.. o coração que não está em Deus não tá em nada!
a Paz!
July 21st, 2009 às 2:00 pm
Adolfo Hernandes Desse:
Realidade. Os valores estão mudando; muitas igrejas querem atingir altos índices nessa nova bolsa de valores… nasci dentro da igreja, sempre fui ativo lá dentro, mas, de uns anos pra cá, fiquei na minha. Continuo firme. forte. na fé. não me acomodo. quero encontrar um lugar legal pra ficar sem ser obrigado a ofertar pra israel, ajudar o pr a ir pra jerusalem , atingir metas na oferta da celula, metas de gente no encontro, meta disso e daquilo.
July 21st, 2009 às 3:24 pm
fernando matias Desse:
RT: Infelizmente, a igreja evangélica também caiu na armadilha do mercado. Passamos a apresentar um Jesus Cristo http://tinyurl.com/mtbjdr
July 21st, 2009 às 3:25 pm
Isis Mariana Desse:
http://bit.ly/MB4ry
<—-x
July 21st, 2009 às 3:26 pm
Thiago Amorim Desse:
Bela reflexão! Bem equilibrada. Dura e verdadeira, mas em amor. Que o Senhor Jesus nos ajude.
July 21st, 2009 às 4:22 pm
Laís Desse:
Realidade daquelas que o alto escalão dessas mega igrejas querem jogar pra debaixo do tapete. é triste, mas enquanto não olharem pra Jesus, e verem a vida e o mundo do jeito que Ele ve, não vai mudar. É frustrante, mas to a um passo do time dos que não querem igreja qualquer. Deus nos ajude a sair dessa realidade inospita ao coração.
July 21st, 2009 às 9:22 pm
rhuan Desse:
Muito bom… sermão neles Jesus
July 21st, 2009 às 10:55 pm
John Desse:
Infelizmente nossa realidade tem se tornado triste, muitos quem tem voltado ao verdadeiro Cristo, são chamados de desobediêntes, dizem que não seguimos a bíblia, pois não obedecemos nossos líderes, mas como? Seguir homens que não seguem a verdadeira visão que Cristo nos mostrou? Prefiro desobedecer aos homens e viver com Cristo. Viva a revolução espiritual inrterior, que cada um possa buscar desprender-se do legalismo e da hipocrisia pseudo-cristã e voltarsse ao verdadeiro cristianismo, que esta passando longe da muitas de nossas igrejas.
Graça e Paz à todos.
July 22nd, 2009 às 1:24 am
Rodney Batista dos Santos Desse:
Faço parte de uma igreja do ramo “histórico” que, em seu contexto mais amplo, sofre aqui e acolá influêcia de tais movimentos, mas resiste com bravura aos ataques ferozes. Dentro do contexto do texto só me causa preocupação a idéia de não participar de igreja alguma, pois considero uma postura comoda, em certa medida. Não é bom nos isolarmos, melhor é unirmo-nos aos que procuram caminhar, apesar de nossas mazelas, com comprometimento com Cristo e seu Reino.
Bendito seja o nosso Deus!
July 22nd, 2009 às 12:00 pm
Priscilla Paganoto Desse:
Reading: "A igreja e o mercado « SOLOMON" (http://twitthis.com/4gyugn)
July 27th, 2009 às 8:30 pm
Carolina Desse:
“Mais do que nunca a igreja precisa de homens e mulheres que ousem olhar para dentro de seus corações e confessar (…)”.
As pessoas cofessam Jesus como salvador no dia que o aceitam, e deixam de confessar que Ele é também Senhor; o verdadeiro administrador de nossas vidas.
É o único que administra necessidades e desejos sem nos levar à falência da adoração e da obediência em troca de resultados significativos para a igreja ver o que temos. Não, Ele nos quer ver sendo.
É por isso que a graça de Deus me basta.
Ótimo post!
Convido a participar do meu blog deixando comentários e dicas. Amém?
http://pontodomeio.wordpress.com
Paz.
July 28th, 2009 às 3:06 pm