O império dos coxinhas

Por Redação | February/22/2009


Chris Martin é um sujeito exemplar. Vocalista e líder do grupo Coldplay, que desembarca nesta semana no país para apresentações no Rio e em São Paulo, ele não perde a chance de ajudar os mais necessitados. No fim de 2009, leiloou antigos instrumentos pela internet para arrecadar fundos para uma instituição que cuida de menores carentes. No mês passado, fez o mesmo com uma jaqueta autografada, para auxiliar vítimas do terremoto no Haiti. Martin raramente fala mal de outros artistas, mesmo quando é provocado – e, quando o faz, arrepende-se. Nas letras do Coldplay, o amor é lindo (ou amarelo, como prega Yellow, um de seus maiores sucessos). “Eu não sou bonzinho. Quando terminar a entrevista, irei para a rua e darei um soco na primeira velhinha que vir na minha frente”, disse Martin, em entrevista a VEJA. Nem precisa dizer que era brincadeirinha. Melódico, o Coldplay é a melhor banda a fazer essa linha “macho delicado”. Já a choradeira do cantor James Blunt e de grupos como Keane e Travis com frequência ultrapassa a linha do suportável. Díspares no talento musical, esses artistas pertencem todos à mesma família espiritual: são os coxinhas. Muito empregado em sites de música e cultura pop, o termo designa o roqueiro bom moço (veja exemplos no quadro abaixo), cuja música se livrou de qualquer traço da agressividade que em priscas eras fazia do rock um gênero musical temido por pais de adolescentes.

O pop nunca viveu sem coxinhas – até os Beatles, nos primeiros anos de sucesso, tiveram sua fase coxinha, entoando “love, love me do” com terninhos aprumados. Anos atrás, a revista americana Blender traçou a genealogia do pop wussy – palavra que literalmente se traduz como “maricas”, mas que, com alguma liberdade, pode ser equivalente a “coxinha”. O pioneiro, na década de 50, foi o cantor Pat Boone, que consagrou o estilo “roqueiro para casar”. Nos anos 70, o cantor James Taylor foi o coxinha-mor, com suas baladas suaves (ainda que os temas às vezes fossem pesados: Taylor falava sobre seu vício em drogas). No pós-punk dos anos 80, a melancolia queixosa de Robert Smith, líder do grupo The Cure, e a correção política militante de Bono, do U2, deitaram as fundações para o atual império dos coxinhas.

Os tempos de hoje favorecem o modo de vida coxinha. A rebeldia roqueira desgastou-se, e público nenhum aguenta ser insultado por bandas cuja apresentação no palco é claudicante (foi por isso, aliás, que o Oasis, que nos anos 90 se anunciava como a nova onda britânica, não conquistou o mercado americano como o Coldplay fez). Não é o caso do coxinha: em geral, ele é competente (ainda que não mostre lá muito carisma no palco). O pop, além disso, acomodou-se à correção política (e sexual). A ostentação priápica de um Mick Jagger, ou de canções que marcaram os anos 70 como Whole Lotta Love, do Led Zeppelin, não tem lugar no rock atual, que ficou um tanto emasculado. O músico coxinha, aliás, quase nunca fala abertamente em sexo. Uma exceção é a recente entrevista do guitarrista John Mayer à Playboy americana. Praticante de um pop com um pé no blues e outro na água com açúcar, Mayer tenta sacudir sua fama de bom moço – mas o faz de modo ainda hesitante. De um lado, admitiu gostar de pornografia (“antes do café da manhã”) e falou de sua relação com a cantora Jessica Simpson (sexo com ela “era como crack”: viciante). Mas ele também se declarou ainda apaixonado por outra ex-namorada, a atriz Jeniffer Aniston (celebrizada por Friends, um seriado coxinha). Mayer disse que hoje prefere a masturbação ao sexo. E, como todo bom coxinha, já se arrependeu do que falou. Pediu desculpas por ter empregado, na entrevista, a palavra nigger, considerada racista.

A manifestação mais extrema desse fenômeno é a onda emo, com suas bandas tristonhas e afetadas. A mais notória é a Fall Out Boy, que recentemente eviscerou Beat It, de Michael Jackson, em uma cover sem alma na qual John Mayer toca guitarra. Os emos, porém, são uma tribo, um nicho do pop. O domínio coxinha é mais amplo. Com 40 milhões de discos vendidos no mundo (550 000 no Brasil), o Coldplay puxa o cordão dessas criaturas ternas. É por causa do sucesso, aliás, que Chris Martin se sente obrigado a participar de campanhas de caridade. “A vida sorriu tanto para nós, e por isso sentimos vontade de ajudar outras pessoas”, diz o cantor. Fofo (e oleoso) – como uma coxinha.

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6 Respostas

  1. Solomon & Capital Desse:

    O império dos coxinhas http://bit.ly/cwDmtr

    February 22nd, 2010 às 9:38 am

  2. Bhettania Barretos Desse:

    RT @proibidopessoas: O império dos coxinhas http://bit.ly/cwDmtr

    February 22nd, 2010 às 9:41 am

  3. bell nascimento Desse:

    RT: @proibidopessoas: O império dos coxinhas http://bit.ly/cwDmtr // o @okoxa tem um império?? uahuahauha

    February 22nd, 2010 às 9:41 am

  4. Fabio koxa Desse:

    RT @tiroshi RT: @proibidopessoas: O império dos coxinhas http://bit.ly/cwDmtr // o @okoxa tem um império?? uahuahauha

    February 22nd, 2010 às 11:46 am

  5. Erick Fabbio Desse:

    RT @proibidopessoas: O império dos coxinhas http://bit.ly/cwDmtr

    February 22nd, 2010 às 11:54 am

  6. barby12bass Desse:

    http://solomon1.com/a/2009/22/o-imperio-dos-coxinhas/ texto legal!

    March 2nd, 2010 às 3:22 pm

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